Pegadas fósseis: Quatro pegadas de 66 milhões de anos indicam que um possível T. rex adulto andava a até 7,2 km/h
A trilha foi achada em 2025 em Dakota do Norte, nos EUA, e descrita no Journal of Vertebrate Paleontology. Os autores dizem que um T. rex adulto é o autor mais provável e calculam um passo de caminhada, não de corrida.

Um professor de ensino médio que fazia trabalho voluntário numa escavação achou, em 2025, quatro pegadas gigantes de três dedos no sudoeste de Dakota do Norte, nos Estados Unidos. O lugar fica em terra federal perto da cidade de Marmarth, numa camada de rocha chamada Formação Hell Creek. A idade estimada das marcas é de 66,5 milhões de anos.
O estudo saiu em setembro de 2026 na revista científica Journal of Vertebrate Paleontology. O primeiro autor é o paleontólogo Peter Falkingham, da Universidade John Moores, de Liverpool, na Inglaterra. A equipe diz que o autor mais provável das pegadas é um Tyrannosaurus rex adulto. E calculou que ele andava num ritmo de caminhada, entre cerca de 5,5 e 7,2 km/h.
O que foi achado, em números
- 4 pegadas em sequência: esquerda, direita, esquerda, direita.
- Cerca de 7 metros de trilha, do primeiro ao último pé.
- Cerca de 1 metro de comprimento em cada pegada. A primeira mede 80 cm de largura, segundo a Science News.
- Cerca de 4 metros de passada. Na paleontologia, "passada" é a distância entre dois apoios do mesmo pé. Ou seja, cada passo tinha perto de 2 metros.
- 66,5 milhões de anos, pouco antes da extinção dos dinossauros.
Quem achou foi Kent Hups, professor de ciências da Northglenn High School, no Colorado, e pesquisador associado do Museu de Natureza e Ciência de Denver. Ele estava numa escavação liderada pelo paleontólogo Tyler Lyson, do mesmo museu. Hups também assina o artigo.
Por que dizer "possível" T. rex?
Porque pegada não traz nome. Ninguém achou ossos dentro das marcas.
Os pesquisadores chegaram ao T. rex por eliminação. Contaram o tamanho, o formato dos três dedos e um fato do lugar: a Hell Creek é rica em fósseis de T. rex, e não se conhece outro predador daquele porte ali, naquela época. Falkingham disse à Science News que o T. rex é "praticamente o único" animal conhecido capaz de deixar essas marcas. Ele mesmo lembra que uma espécie ainda não descoberta poderia ter feito a trilha, embora nenhum candidato seja conhecido.
Por isso o título do próprio artigo usa a expressão "provavelmente atribuível" a um T. rex adulto.
Por que uma trilha de T. rex é tão rara?
O T. rex é um dos dinossauros mais famosos do mundo. Mesmo assim, até agora só existiam pegadas isoladas atribuídas a adultos da espécie. A Smithsonian cita duas: uma no Novo México e outra em Montana. A foto desta matéria mostra uma pegada do Novo México atribuída a tiranossauro, descrita por cientistas em 1994.
Uma pegada sozinha diz pouco. "Uma única pegada não conta muita coisa", resumiu Falkingham. Já uma sequência mostra como o animal colocava um pé depois do outro, a largura do passo e a direção. É o que permite calcular a velocidade.
Tyler Lyson explicou a diferença assim, no comunicado da universidade: os ossos contam muito sobre esses animais, mas as pegadas registram um momento de comportamento.
E ainda há o jeito como essas marcas sobreviveram, que é curioso.
Como pegadas de lama duraram 66 milhões de anos?
O animal pisou numa lama mole. Depois, areia encheu os buracos e foi cimentada por carbonato de cálcio, virando uma espécie de molde de pedra. A rocha em volta era mais mole e foi gasta pela erosão com o tempo.
Resultado: hoje as pegadas não são buracos no chão. Elas ficam em relevo, saltadas para fora, como o "negativo" do pé.
Esse desgaste também é um problema. As marcas estão bem gastas, o que deixa o cálculo de velocidade menos preciso. A equipe escaneou tudo em 3D, em alta resolução, ainda no campo. Três das pegadas foram envolvidas em gesso e devem ser levadas de helicóptero para o museu de Denver.
Como se calcula a velocidade de um dinossauro pela pegada?
A ideia vem de animais vivos. Quanto mais rápido um bicho anda, mais longa fica a passada. Mas uma passada longa pode ser só de um animal de perna comprida, andando devagar. Então a conta precisa de duas coisas: o comprimento da passada e o tamanho do animal.
O método clássico foi publicado em 1976 na revista Nature pelo zoólogo britânico R. McNeill Alexander. Como quase nunca se sabe a altura do quadril do dinossauro, ele usou uma regra prática: o quadril fica a cerca de 4 vezes o comprimento do pé. Com isso, a fórmula transforma passada e altura do quadril em velocidade.
Segundo a Science News, a equipe de Falkingham também usou passada e tamanho do corpo para chegar ao número. O artigo não diz que foi exatamente a fórmula de 1976, e há variações desse método. Fizemos uma conta de conferência com a regra clássica e os números divulgados: o resultado fica entre cerca de 5,5 e 7 km/h. Bate com o que a equipe publicou.
Afinal, qual é a velocidade?
Aqui as fontes não usam o mesmo número, e vale contar:
- Smithsonian: de 3,4 a 4,5 milhas por hora, ou seja, de cerca de 5,5 a 7,2 km/h.
- Taylor & Francis (editora da revista) e Nautilus: de 3,5 a 4,5 milhas por hora, de cerca de 5,6 a 7,2 km/h.
- Universidade John Moores: cerca de 4 milhas por hora, perto de 6,4 km/h.
- Science News: cerca de 1,6 metro por segundo, perto de 5,8 km/h.
Os 7,2 km/h da manchete são o topo da faixa. Não são uma medida exata.
Todas as fontes concordam no principal: o bicho estava andando, não correndo. Os pesquisadores comparam o ritmo ao de uma pessoa em caminhada rápida. Nada de perseguição.
O que a trilha não responde
- Se o pé pousava inteiro de uma vez ou do calcanhar para os dedos. Com marcas mais bem conservadas daria para ver, diz Falkingham.
- Quanto o T. rex conseguia correr. A trilha mostra uma caminhada, não o limite do animal.
- Como andavam os mais jovens. Filhotes e adolescentes provavelmente se moviam de outro jeito, então o dado vale para um adulto.
O que vem agora
As três pegadas retiradas devem chegar ao Museu de Natureza e Ciência de Denver, onde vão ser estudadas e preparadas. Os modelos 3D já permitem fazer réplicas físicas das marcas. Se aparecerem outras trilhas na região, mais bem conservadas, elas podem confirmar ou corrigir a velocidade calculada agora.
Gosta de ciência explicada? Leia também o Nobel de Química de 2026 e as moléculas espelhadas.
Fontes
- Journal of Vertebrate Paleontology — A large tridactyl trackway from the Upper Cretaceous Hell Creek Formation of North Dakota, likely attributable to an adult Tyrannosaurus rex (Falkingham e outros, 2026)
- Liverpool John Moores University — New insights into how the T. rex moved (08/09/2026)
- Taylor & Francis — First-ever trackway of adult T. rex discovered (09/09/2026)
- Smithsonian Magazine — Four giant dinosaur footprints discovered in North Dakota might represent the first trackway made by an adult T. rex (15/09/2026)
- Science News — First series of adult T. rex footprints hints at its walking speed
- Nautilus — Here's how fast an adult Tyrannosaurus rex walked (15/09/2026)
- Nature — Estimates of speeds of dinosaurs (R. McNeill Alexander, 1976)
- Wikimedia Commons — Pegada de Tyrannosauripus pillmorei, Novo México (foto de James St. John, CC BY 2.0)_(15352953647).jpg)
Imagens: Pegada atribuída a tiranossauro achada no Novo México, exposta no Museu de Geologia da Universidade de Wyoming (imagem ilustrativa, não é da trilha nova). Foto: James St. John (CC BY 2.0), via Wikimedia Commons





