Entenda a contestação: Flávio diz que não reconhece vitória de Lula e vai pedir anulação; veja o que a lei exige
O senador culpa a prorrogação da votação até as 19h, decidida por Cristiano Zanin, do STF. Só que a própria campanha dele também pediu mais tempo de votação no domingo.

Eram cerca de 22h40 de domingo (25) quando Flávio Bolsonaro (PL) falou pela primeira vez depois da derrota. Na casa no Lago Sul, em Brasília, onde acompanhou a apuração, o senador disse que não reconhece a vitória de Lula (PT) e que vai pedir a anulação da eleição.
"É impossível reconhecer o resultado dessa eleição no contexto em que essas coisas aconteceram", afirmou. Mas o que exatamente ele contesta? E o que a lei diz sobre anular uma eleição presidencial?
O placar que está em jogo
Com 100% das urnas apuradas, Lula teve 64.256.232 votos (51,79% dos válidos). Flávio ficou com 59.826.041 (48,21%), segundo os números da totalização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicados pela Gazeta do Povo.
A diferença passa de 4,4 milhões de votos. Guarde esse número. Ele volta mais adiante.
O que Flávio contesta
O alvo é a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que esticou a votação das 17h para as 19h em todo o país. Segundo as reportagens, os argumentos do senador foram estes:
- Zanin não faz parte do TSE, e por isso a decisão teria atropelado a Justiça Eleitoral.
- A decisão saiu logo depois das 17h (17h01, segundo a Gazeta do Povo; 17h03, segundo o Poder360), quando muitas urnas já estavam fechadas. Para ele, isso quebrou a igualdade entre eleitores de cidades diferentes.
- Fiscais do PL teriam sido retirados da sala-cofre do TSE depois da decisão.
Ele também lembrou que Zanin foi advogado de Lula. Até a publicação deste texto, as acusações não tinham sido comprovadas, e o pedido de anulação não aparecia como protocolado nas reportagens consultadas.
Como a votação foi parar nas 19h?
A ordem saiu de uma reclamação ao STF (Rcl 101.673) apresentada pela coligação de Lula, a Brasil Pronto Pra Mais. O pedido apontava falta de ônibus para eleitores em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, na Bahia.
A reclamação chegou ao Supremo às 16h32. Zanin considerou o caso urgente e mandou prorrogar a votação em todo o território nacional, cabendo ao TSE cumprir. Depois, num segundo despacho, esclareceu que a prorrogação valia só onde a votação ainda não tinha terminado. O TSE chegou a pausar a divulgação dos números por volta das 17h20. A sequência completa, hora a hora, está em por que a votação foi prorrogada até as 19h.
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, disse na mesma noite que "não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial" e que o tribunal tem "absoluta segurança de todo o processo eleitoral".
O detalhe que pouca gente notou
Horas antes, a campanha de Flávio também tinha pedido mais tempo de votação. Ao TSE, e não ao STF.
O motivo eram chuvas, alagamentos e estradas bloqueadas. O pedido era para estender a votação até as 19h em parte do país, e a campanha também queria que os resultados só fossem divulgados depois do fim da votação nesses lugares.
Aqui as fontes divergem. CNN Brasil, InfoMoney e Gazeta do Povo citam municípios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina (17 ou 19 cidades, conforme o veículo). A Agência Brasil listou cinco estados: São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Não encontramos decisão do TSE sobre esse pedido específico.
Na prática, os dois lados pediram prorrogação. A diferença é o alcance: a campanha de Flávio pediu para cidades atingidas pela chuva, e a decisão que valeu foi a de Zanin, para o país inteiro.
E a promessa de respeitar as urnas?
Em 2 de agosto, no programa Canal Livre, da Band, Flávio disse sobre o resultado: "Eu vou aceitar. Eu vou concorrer com essas regras". Em 28 de agosto, na sabatina da TV Globo, repetiu: "Vou respeitar o processo eleitoral, vou respeitar o resultado das eleições". Na ocasião, ao ser perguntado se aceitaria uma derrota, não respondeu diretamente.
O que diz a lei sobre anular uma eleição
O Código Eleitoral (Lei 4.737/1965) tem regras claras sobre horário. E elas ajudam a entender por que a disputa vai ser jurídica, e não só política.
- Horário (art. 144): a votação vai das 8h às 17h. Quem já está na fila às 17h recebe senha e vota (art. 153).
- Votação nula (art. 220): é nula a votação feita em "dia, hora ou local diferentes do designado". Esse é o ponto que a defesa de Flávio deve explorar.
- Prejuízo (art. 219): o juiz não deve anular nada "sem demonstração de prejuízo". O parágrafo único vai além: quem deu causa à nulidade não pode pedi-la nem se beneficiar dela. Se isso pesa no caso de domingo, só a Justiça vai dizer.
- Nova eleição (art. 224): só se a nulidade atingir mais da metade dos votos do país. Aí o tribunal marca outra eleição, em 20 a 40 dias.
Lembra dos 4,4 milhões de votos? Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo dizem que Flávio teria de mostrar que a prorrogação mudou o resultado, o que exigiria provar um impacto maior que essa diferença. A advogada Marilda Silveira classificou a anulação como "quase impossível". Fernando Neisser avaliou que haverá pedido, mas que a força dele depende dos números.
O que se sabe e o que ainda não se sabe
O que se sabe: - Lula venceu com 51,79% dos votos válidos. - Zanin prorrogou a votação a pedido da coligação de Lula; depois limitou a medida às seções ainda abertas. - A campanha de Flávio pediu ao TSE prorrogação em cidades atingidas por chuva.
O que ainda não se sabe: - Quando, onde e com quais argumentos o pedido de anulação será apresentado. - Quantos eleitores votaram depois das 17h. - Se o plenário do STF vai rever a decisão de Zanin.
O que vem agora
Pelo calendário do TSE, os eleitos precisam ser diplomados até 18 de dezembro de 2026. A posse do presidente está marcada para 5 de janeiro de 2027. Anunciar uma contestação não muda o resultado automaticamente. O próximo passo a acompanhar é o protocolo do pedido e a resposta do TSE e do STF. Veja o passo a passo do segundo turno até a posse e como foi a noite da apuração.
Fontes
- Gazeta do Povo — Flávio Bolsonaro diz que não reconhece resultado e vai pedir anulação da eleição
- InfoMoney — Flávio não reconhece resultado da eleição e diz que pedirá anulação ao TSE
- Poder360 — Leia a íntegra da decisão de Zanin que prorroga votação até as 19h
- Poder360 — STF atropela TSE e prorroga eleição em 2h
- Migalhas — Zanin prorroga votação até as 19h após reclamação sobre transporte
- Agência Brasil — Campanha de Flávio pede votação até 19h por chuvas em alguns estados
- CNN Brasil — Flávio e Lula pedem extensão do horário de votação até 19h
- DGABC — Nunes Marques: Não houve nenhuma alteração advinda de decisão do STF
- Gazeta do Povo — Diferença de votos na vitória de Lula sobre Flávio dificulta anulação da eleição
- Poder360 — Flávio diz que respeitará resultado das eleições
- DGABC — Flávio Bolsonaro diz que aceitará o resultado das urnas, mas critica TSE por eleições de 2022
- Planalto — Código Eleitoral (Lei 4.737/1965)
- Poder360 — Eleições de 2026: datas e regras do calendário eleitoral
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
Imagens: Senador Flávio Bolsonaro em entrevista no Senado, em 2022 (arquivo). Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado (CC BY 2.0), via Wikimedia Commons