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Ciência

Futuro do Sistema Solar: Estrela morta a 1.600 anos-luz tem dois anéis de restos de planetas, o primeiro caso conhecido

Astrônomos usaram o Very Large Telescope, no Chile, para achar dois anéis de gás separados por um vão em volta da anã branca J1328−1450. O estudo saiu na Nature Astronomy e ajuda a entender o que sobra dos planetas quando uma estrela como o Sol morre.

Por Redação Casos do Mundo ·

Futuro do Sistema Solar: Estrela morta a 1.600 anos-luz tem dois anéis de restos de planetas, o primeiro caso conhecido
Ilustração artística dos dois anéis em volta da anã branca J1328−1450 (não é foto real). Imagem: ESO/L. Calçada (CC BY 4.0), via ESO

Uma equipe internacional de astrônomos encontrou, em volta de uma estrela morta, uma coisa que ninguém tinha visto antes: dois anéis de gás, um dentro do outro, com um espaço vazio entre eles. A estrela se chama J1328−1450. É uma anã branca, o que sobra de uma estrela parecida com o Sol depois que ela morre, e fica a cerca de 1.600 anos-luz da Terra.

O estudo saiu nesta semana na revista Nature Astronomy e foi anunciado em 27 de outubro de 2026 pelo Observatório Europeu do Sul (ESO). O primeiro autor é Nicola Pietro Gentile Fusillo, da Universidade de Trieste e do Observatório Astronômico de Trieste (INAF), na Itália. Os dados vieram do instrumento X-shooter, do Very Large Telescope (VLT), no deserto do Atacama, no Chile. A explicação mais provável, segundo a equipe, é que dois corpos que sobreviveram à morte da estrela mantêm os anéis no lugar.

O que é uma anã branca?

Uma estrela como o Sol passa bilhões de anos queimando hidrogênio no centro. Quando esse combustível acaba, ela incha e vira uma gigante vermelha. Depois solta as camadas de fora no espaço.

Sobra só o núcleo. Esse núcleo é a anã branca.

Segundo a NASA, ela costuma ter o tamanho da Terra, mas centenas de milhares de vezes mais massa. Uma colher de chá do material dela pesaria mais que uma caminhonete. Ela não produz calor novo. Só esfria, devagar, por bilhões de anos.

O que os astrônomos viram, em números

  • 2 anéis de gás, um dentro do outro, com um vão sem gás entre eles.
  • Anel de dentro: de cerca de 100 mil a 240 mil km da estrela.
  • Anel de fora: de cerca de 375 mil km a mais de 1,3 milhão de km.
  • De 2021 a 2023: período das observações repetidas. A estrutura ficou estável por mais de dois anos.
  • 21 sistemas parecidos já eram conhecidos. Todos tinham um anel só.

Para ter uma ideia da escala: a distância da Terra até a Lua é de cerca de 384 mil km. Ou seja, o anel de fora começa a uma distância da estrela parecida com a que separa a Terra da Lua. Tudo isso fica muito perto. O sistema inteiro caberia com folga dentro da órbita de Mercúrio.

Se ninguém fotografou os anéis, como se sabe que eles existem?

A estrela está longe demais para aparecer como um disco numa foto. A imagem desta matéria é uma ilustração.

O que os cientistas medem é a luz. O X-shooter separa a luz em cores, como um prisma. Num anel de gás girando, uma parte do gás vem na nossa direção e a outra se afasta. Isso desloca um pouco a cor da luz para um lado e para o outro. No gráfico, aparece um sinal com dois picos.

Os 21 sistemas conhecidos mostram esses dois picos. A J1328−1450 mostrou quatro, nas linhas de cálcio e de oxigênio. Quatro picos querem dizer dois anéis girando em distâncias diferentes.

"Este é o primeiro exemplo de um sistema complexo com um disco de detritos duplo e, potencialmente, dois planetesimais sobreviventes", disse Gentile Fusillo no comunicado do ESO. Planetesimal é um pedaço de rocha que ajuda a formar planetas.

De onde vem esse gás?

De restos de planetas. O gás tem cálcio, oxigênio, magnésio e ferro, uma mistura parecida com a das rochas do nosso Sistema Solar.

Os dois anéis, porém, não são iguais. O de dentro é rico em magnésio. O de fora quase não tem. A equipe vê duas explicações possíveis:

  • os anéis vieram de dois corpos diferentes, formados em condições diferentes;
  • ou vieram de camadas diferentes de um mesmo corpo, como a crosta e o núcleo de um planeta destruído.

Quem segura os anéis no lugar?

Aqui está a parte que mais surpreendeu. Para os anéis ficarem separados e estáveis, os modelos indicam que existem dois corpos escondidos ali, um dentro de cada anel. Ao passar pela poeira, eles soltariam o gás que os telescópios detectam.

Ninguém viu esses corpos. "Não conseguimos vê-los diretamente", disse Gentile Fusillo. A presença deles foi deduzida pelo formato e pela composição do gás.

Os tamanhos são estimativas máximas, e as fontes divergem num ponto:

  • Corpo de dentro: do porte de um asteroide comum. O ESO fala em poucos quilômetros. A legenda da ilustração divulgada pela Universidade de Warwick fala em algumas dezenas de quilômetros.
  • Corpo de fora: pode chegar ao tamanho de Plutão, ou até da Lua.

Boris Gänsicke, da Universidade de Warwick, ajuda a medir o tamanho da surpresa. O grupo dele descobriu o primeiro disco de gás em volta de uma anã branca, há 20 anos. Ver uma com dois discos separados foi, nas palavras dele, "uma surpresa de verdade".

E o Sol, vai virar uma anã branca?

Vai. Segundo a NASA, o Sol tem cerca de 4,6 bilhões de anos e deve durar mais uns 5 bilhões antes de virar anã branca. No caminho, ele vira gigante vermelha. Nessa fase, deve engolir Mercúrio e Vênus, e possivelmente a Terra.

O ESO resume o mesmo cenário: esse processo pode destruir a Terra. Na prática, o que sobra de um sistema como o nosso pode ser parecido com o que se vê em volta da J1328−1450. Um núcleo pequeno e quente, com restos de rocha girando perto dele.

"Este sistema dá uma ideia de como pode ser o futuro de sistemas planetários, incluindo os parecidos com o nosso", disse Felipe Lagos-Vilches, da Universidade de Warwick e da Universidade Técnica Federico Santa María, no Chile.

Nada disso é motivo de preocupação para quem está vivo. A escala é de bilhões de anos.

O que ainda não se sabe

  • Se os dois corpos escondidos existem mesmo. Eles são a melhor explicação, mas não foram detectados.
  • Se o gás veio de dois planetas diferentes ou de partes diferentes de um só.
  • Por que só este, entre os 22 discos de gás conhecidos em volta de anãs brancas, tem dois anéis.

O que vem agora

Segundo os autores, a descoberta desafia as ideias atuais sobre como esses discos se formam e mudam, e sobre a origem do gás em volta de anãs brancas. Com o estudo publicado, outras equipes podem testar a hipótese dos dois corpos escondidos. Vale acompanhar se aparecem outras anãs brancas com o mesmo sinal de quatro picos. Isso vai dizer se a J1328−1450 é uma exceção ou só a primeira de um grupo.

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Fontes

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Imagens: Ilustração artística dos dois anéis em volta da anã branca J1328−1450 (não é foto real). Imagem: ESO/L. Calçada (CC BY 4.0), via ESO

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