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Saúde

O que o estudo mediu: Uma sessão de tabaco aquecido piorou a função das artérias e danificou DNA de fumantes, mostra estudo alemão

Pesquisadores da Universidade de Mainz testaram 30 fumantes saudáveis antes e logo depois de usarem dois bastões num aparelho IQOS. A pressão subiu, a artéria do braço dilatou menos e apareceu dano no DNA de células do sangue. O teste foi com tabaco aquecido, não com vape de líquido.

Por Redação Casos do Mundo ·

O que o estudo mediu: Uma sessão de tabaco aquecido piorou a função das artérias e danificou DNA de fumantes, mostra estudo alemão
Aparelho de tabaco aquecido IQOS 3 Duo, o mesmo modelo usado no estudo, imagem ilustrativa (arquivo, 2021). Foto: Aphis Marta (CC BY-SA 4.0), via Wikimedia Commons

Trinta fumantes saudáveis foram ao hospital universitário de Mainz, na Alemanha, de manhã e em jejum. Sob supervisão da equipe, cada um usou dois bastões de tabaco num aparelho IQOS 3 Duo, um atrás do outro. Levou de 8 a 12 minutos.

Logo depois, os médicos repetiram os exames do começo. A pressão subiu, a artéria do braço passou a dilatar menos e os testes acharam dano no DNA de células do sangue. O estudo saiu na terça-feira (27) no European Journal of Preventive Cardiology, revista da Sociedade Europeia de Cardiologia.

Não foi vape. Foi tabaco aquecido

A diferença importa, e parte do noticiário brasileiro tratou os dois como a mesma coisa.

O vape, ou cigarro eletrônico, aquece um líquido. O tabaco aquecido usa um bastão de tabaco de verdade, que esquenta dentro do aparelho sem pegar fogo. A Anvisa descreve esse tipo como um dispositivo eletrônico em que se encaixa um refil "com matriz sólida". Os fabricantes vendem o produto com a ideia de que, sem combustão, faz menos mal.

O estudo testou só o tabaco aquecido. Os bastões eram da linha HEETS, versão Sienna. Segundo o artigo, a nicotina de um bastão equivale, mais ou menos, à de um cigarro comum.

Os números, antes e depois

Segundo o comunicado da Sociedade Europeia de Cardiologia e o artigo científico:

  • Pressão sistólica (a "máxima"): subiu 3 mmHg. A mínima e os batimentos não mudaram de forma significativa.
  • Função da artéria: a capacidade da artéria do braço de se alargar quando o sangue passa mais forte caiu 11%. É o exame de dilatação mediada por fluxo, feito com ultrassom.
  • Oxigênio no sangue da veia: a saturação foi de cerca de 71% para cerca de 46%.
  • DNA: um exame chamado ensaio cometa mostrou mais quebras no DNA de células do sangue.
  • Estresse oxidativo: as células reagiram como quem se defende de uma agressão química.

Um aviso sobre o número do oxigênio. Ele foi medido no sangue que volta pelas veias. Não é o número que aparece no oxímetro de dedo, que mede o sangue das artérias.

O artigo traz ainda dois achados que pouca gente citou. A glicose no sangue subiu. E o monóxido de carbono no sangue foi mais baixo do que costuma aparecer com o cigarro comum, dizem os autores. Faz sentido: sem fogo, há menos produtos da queima.

Então o tabaco aquecido é tão ruim quanto o cigarro?

O estudo não responde isso. E vale ser direto aqui.

Ninguém fumou cigarro comum no teste, para comparar. O que os autores dizem é outra coisa: que o produto "não é biologicamente inerte", nas palavras da autora principal, Lea Strohm. Ou seja, mesmo sem fogo, ele mexe com vasos, sangue e células logo depois de uma única sessão.

O coautor Thomas Münzel resumiu assim: o tabaco aquecido produz menos substâncias de combustão, mas continua entregando nicotina.

O que o estudo não prova

O próprio artigo lista os limites. São quatro que pesam:

  1. Efeito imediato. Os exames foram feitos logo após o uso. Ninguém sabe quanto tempo as alterações duram nem se viram doença. Os autores escrevem que o resultado não deve ser lido como prova de lesão permanente.
  2. Sem grupo de comparação. Cada pessoa foi comparada com ela mesma. Não houve um bastão sem nicotina, porque não existia um para esse aparelho. Assim, não dá para separar o efeito da nicotina do efeito das outras substâncias do vapor.
  3. Amostra pequena. Foram 30 voluntários, mas nem todos fizeram todos os exames. A artéria foi medida em 28, a pressão e o sangue em 24. O teste de DNA, o mais citado nas manchetes, foi feito em apenas 6 pessoas.
  4. Fumantes de verdade. Todos já usavam nicotina. Pouco mais da metade já usava tabaco aquecido no dia a dia. O histórico de quanto cada um fumou na vida não foi medido.

Os pesquisadores pedem estudos maiores e mais longos.

Quem fez e quem pagou

São 12 autores, todos do serviço de cardiologia do Centro Médico da Universidade Johannes Gutenberg, em Mainz. O dinheiro veio principalmente da Fundação Alemã de Pesquisa (DFG) e da Fundação Coração de Mainz. Os autores declararam não ter conflito de interesse. O estudo teve aprovação de ética da associação médica do estado da Renânia-Palatinado.

E no Brasil?

O tabaco aquecido é proibido aqui. A Anvisa veta a venda, a importação e a propaganda de todos os dispositivos eletrônicos para fumar desde 2009. Em abril de 2024, a Resolução RDC nº 855 manteve a proibição e a estendeu à fabricação, ao armazenamento e ao transporte. O artigo 2º cita pelo nome o "produto de tabaco aquecido" e o "heat not burn". Trazer na bagagem também é proibido, e o uso em lugar fechado coletivo está vetado.

Mesmo assim, o uso cresce. Segundo o Vigitel 2024, citado pelo Ministério da Saúde, 13,1% dos adultos fumam ou usam dispositivos eletrônicos. Em 2019 eram 11,3%.

O que vem agora

Os autores pedem que todos os produtos com nicotina sigam as mesmas regras: limite de sabores, proibição de propaganda e de uso em lugar fechado. Novos estudos devem medir se o efeito some ou se acumula com o tempo.

Para quem quer parar, o SUS oferece tratamento gratuito nas Unidades Básicas de Saúde, com acompanhamento e remédios como adesivo e goma de nicotina. Informações também pelo Disque Saúde 136.

Outra matéria de saúde do Casos do Mundo: o remédio para câncer de pulmão avançado aprovado pela Anvisa.

Este texto é informativo e não substitui consulta. Para parar de fumar ou avaliar sua saúde do coração, procure um profissional.

Fontes

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Imagens: Aparelho de tabaco aquecido IQOS 3 Duo, o mesmo modelo usado no estudo, imagem ilustrativa (arquivo, 2021). Foto: Aphis Marta (CC BY-SA 4.0), via Wikimedia Commons

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