O que o estudo mediu: Uma sessão de tabaco aquecido piorou a função das artérias e danificou DNA de fumantes, mostra estudo alemão
Pesquisadores da Universidade de Mainz testaram 30 fumantes saudáveis antes e logo depois de usarem dois bastões num aparelho IQOS. A pressão subiu, a artéria do braço dilatou menos e apareceu dano no DNA de células do sangue. O teste foi com tabaco aquecido, não com vape de líquido.

Trinta fumantes saudáveis foram ao hospital universitário de Mainz, na Alemanha, de manhã e em jejum. Sob supervisão da equipe, cada um usou dois bastões de tabaco num aparelho IQOS 3 Duo, um atrás do outro. Levou de 8 a 12 minutos.
Logo depois, os médicos repetiram os exames do começo. A pressão subiu, a artéria do braço passou a dilatar menos e os testes acharam dano no DNA de células do sangue. O estudo saiu na terça-feira (27) no European Journal of Preventive Cardiology, revista da Sociedade Europeia de Cardiologia.
Não foi vape. Foi tabaco aquecido
A diferença importa, e parte do noticiário brasileiro tratou os dois como a mesma coisa.
O vape, ou cigarro eletrônico, aquece um líquido. O tabaco aquecido usa um bastão de tabaco de verdade, que esquenta dentro do aparelho sem pegar fogo. A Anvisa descreve esse tipo como um dispositivo eletrônico em que se encaixa um refil "com matriz sólida". Os fabricantes vendem o produto com a ideia de que, sem combustão, faz menos mal.
O estudo testou só o tabaco aquecido. Os bastões eram da linha HEETS, versão Sienna. Segundo o artigo, a nicotina de um bastão equivale, mais ou menos, à de um cigarro comum.
Os números, antes e depois
Segundo o comunicado da Sociedade Europeia de Cardiologia e o artigo científico:
- Pressão sistólica (a "máxima"): subiu 3 mmHg. A mínima e os batimentos não mudaram de forma significativa.
- Função da artéria: a capacidade da artéria do braço de se alargar quando o sangue passa mais forte caiu 11%. É o exame de dilatação mediada por fluxo, feito com ultrassom.
- Oxigênio no sangue da veia: a saturação foi de cerca de 71% para cerca de 46%.
- DNA: um exame chamado ensaio cometa mostrou mais quebras no DNA de células do sangue.
- Estresse oxidativo: as células reagiram como quem se defende de uma agressão química.
Um aviso sobre o número do oxigênio. Ele foi medido no sangue que volta pelas veias. Não é o número que aparece no oxímetro de dedo, que mede o sangue das artérias.
O artigo traz ainda dois achados que pouca gente citou. A glicose no sangue subiu. E o monóxido de carbono no sangue foi mais baixo do que costuma aparecer com o cigarro comum, dizem os autores. Faz sentido: sem fogo, há menos produtos da queima.
Então o tabaco aquecido é tão ruim quanto o cigarro?
O estudo não responde isso. E vale ser direto aqui.
Ninguém fumou cigarro comum no teste, para comparar. O que os autores dizem é outra coisa: que o produto "não é biologicamente inerte", nas palavras da autora principal, Lea Strohm. Ou seja, mesmo sem fogo, ele mexe com vasos, sangue e células logo depois de uma única sessão.
O coautor Thomas Münzel resumiu assim: o tabaco aquecido produz menos substâncias de combustão, mas continua entregando nicotina.
O que o estudo não prova
O próprio artigo lista os limites. São quatro que pesam:
- Efeito imediato. Os exames foram feitos logo após o uso. Ninguém sabe quanto tempo as alterações duram nem se viram doença. Os autores escrevem que o resultado não deve ser lido como prova de lesão permanente.
- Sem grupo de comparação. Cada pessoa foi comparada com ela mesma. Não houve um bastão sem nicotina, porque não existia um para esse aparelho. Assim, não dá para separar o efeito da nicotina do efeito das outras substâncias do vapor.
- Amostra pequena. Foram 30 voluntários, mas nem todos fizeram todos os exames. A artéria foi medida em 28, a pressão e o sangue em 24. O teste de DNA, o mais citado nas manchetes, foi feito em apenas 6 pessoas.
- Fumantes de verdade. Todos já usavam nicotina. Pouco mais da metade já usava tabaco aquecido no dia a dia. O histórico de quanto cada um fumou na vida não foi medido.
Os pesquisadores pedem estudos maiores e mais longos.
Quem fez e quem pagou
São 12 autores, todos do serviço de cardiologia do Centro Médico da Universidade Johannes Gutenberg, em Mainz. O dinheiro veio principalmente da Fundação Alemã de Pesquisa (DFG) e da Fundação Coração de Mainz. Os autores declararam não ter conflito de interesse. O estudo teve aprovação de ética da associação médica do estado da Renânia-Palatinado.
E no Brasil?
O tabaco aquecido é proibido aqui. A Anvisa veta a venda, a importação e a propaganda de todos os dispositivos eletrônicos para fumar desde 2009. Em abril de 2024, a Resolução RDC nº 855 manteve a proibição e a estendeu à fabricação, ao armazenamento e ao transporte. O artigo 2º cita pelo nome o "produto de tabaco aquecido" e o "heat not burn". Trazer na bagagem também é proibido, e o uso em lugar fechado coletivo está vetado.
Mesmo assim, o uso cresce. Segundo o Vigitel 2024, citado pelo Ministério da Saúde, 13,1% dos adultos fumam ou usam dispositivos eletrônicos. Em 2019 eram 11,3%.
O que vem agora
Os autores pedem que todos os produtos com nicotina sigam as mesmas regras: limite de sabores, proibição de propaganda e de uso em lugar fechado. Novos estudos devem medir se o efeito some ou se acumula com o tempo.
Para quem quer parar, o SUS oferece tratamento gratuito nas Unidades Básicas de Saúde, com acompanhamento e remédios como adesivo e goma de nicotina. Informações também pelo Disque Saúde 136.
Outra matéria de saúde do Casos do Mundo: o remédio para câncer de pulmão avançado aprovado pela Anvisa.
Este texto é informativo e não substitui consulta. Para parar de fumar ou avaliar sua saúde do coração, procure um profissional.
Fontes
- European Journal of Preventive Cardiology: Cardiovascular and metabolic acute effects of heated tobacco products in healthy smokers (27/10/2026, em inglês)
- Sociedade Europeia de Cardiologia, via EurekAlert: One session of heated tobacco use injures blood vessels and damages DNA (27/10/2026, em inglês)
- Universidade de Mainz: Even a single use of heated tobacco can cause acute changes in vascular function (27/10/2026, em inglês)
- News-Medical: Heated tobacco products cause immediate cardiovascular and genetic damage (27/10/2026, em inglês)
- Medical Xpress: One session of heated tobacco use injures blood vessels and damages DNA (em inglês)
- Anvisa: Cigarro eletrônico, danos à saúde
- Anvisa: Resolução RDC nº 855/2024 (versão em inglês)
- LegisWeb: texto da Resolução RDC nº 855, de 23/04/2024
- Ministério da Saúde: Mais de 2,5 milhões de brasileiros buscaram tratamento para parar de fumar no SUS em 2025
Imagens: Aparelho de tabaco aquecido IQOS 3 Duo, o mesmo modelo usado no estudo, imagem ilustrativa (arquivo, 2021). Foto: Aphis Marta (CC BY-SA 4.0), via Wikimedia Commons





