Entenda a aprovação: Anvisa aprova Emrelis para um tipo de câncer de pulmão avançado; remédio ainda não tem previsão no SUS
O registro saiu no Diário Oficial em 19 de outubro e vale para adultos com câncer de pulmão de células não pequenas que já fizeram tratamento e têm excesso da proteína c-Met. No estudo, cerca de 3 em cada 10 pacientes tiveram resposta.

A Anvisa aprovou o registro do Emrelis, nome comercial da telisotuzumabe vedotina, para um tipo específico de câncer de pulmão avançado. A resolução foi assinada em 16 de outubro e publicada no Diário Oficial da União na segunda-feira, 19. A agência anunciou a decisão no dia 20.
O remédio é da farmacêutica AbbVie e é aplicado na veia, por infusão. Não serve para todo paciente com câncer de pulmão, só para um grupo bem delimitado. E esse grupo ainda não tem como recebê-lo pelo SUS.
Para quem o remédio foi aprovado
A indicação é estreita. Vale para adultos com câncer de pulmão de células não pequenas que tenham, ao mesmo tempo:
- tumor do tipo não escamoso;
- doença localmente avançada ou metastática (que já se espalhou para outras partes do corpo);
- gene EGFR sem mutação, o chamado "tipo selvagem";
- alta quantidade da proteína c-Met nas células do tumor.
O paciente também precisa já ter passado por tratamento sistêmico, aquele que age no corpo todo, como quimioterapia ou imunoterapia.
Para ter uma ideia do tamanho do grupo: segundo a Anvisa, o tipo "células não pequenas" responde por cerca de 85% dos casos de câncer de pulmão, e uns 70% deles são não escamosos. Só uma parte desses pacientes tem a c-Met em excesso. A agência não divulgou quantos.
O que é a c-Met e por que ela importa
A c-Met é uma proteína que fica na superfície das células. Em alguns tumores, ela aparece em quantidade muito acima do normal. É justamente essa sobra que o remédio usa como alvo.
Funciona assim, segundo a Anvisa: o Emrelis é um anticorpo "carregando" uma substância que mata células, a monometilauristatina E. O anticorpo reconhece a c-Met, se prende à célula do tumor e entra nela. Lá dentro, solta a carga tóxica.
Nos Estados Unidos, a FDA (a "Anvisa" americana) exige um exame de laboratório aprovado para provar o excesso de c-Met. O critério deles é ter pelo menos 50% das células do tumor com marcação forte para a proteína.
O que o estudo mostrou
A aprovação se apoiou num estudo de fase 2 chamado LUMINOSITY, feito com pacientes que já tinham sido tratados antes. Os números divulgados pela Anvisa:
- 29,2% de taxa de resposta na população total avaliada;
- 34,5% entre os pacientes com alta quantidade de c-Met.
Na prática, "resposta" quer dizer que o tumor encolheu de forma clara nos exames ou sumiu. Em números redondos, cerca de 3 em cada 10 pacientes tiveram esse resultado. Não é promessa de cura.
O dado americano ajuda a medir quanto isso dura. Na análise da FDA, com 84 pacientes, metade de quem respondeu manteve a resposta por 7,2 meses ou mais. O estudo não comparou o Emrelis com outro tratamento: todos receberam o mesmo remédio.
Os efeitos colaterais mais comuns, segundo a FDA, foram lesão em nervos (com formigamento e dormência), cansaço, perda de apetite e inchaço nos braços e pernas.
Já foi aprovado em outro país?
Sim. A FDA deu aprovação acelerada ao Emrelis em 14 de maio de 2025, para o mesmo perfil de paciente. Esse tipo de aprovação sai com base em resultados iniciais. Para continuar valendo lá, o benefício precisa ser confirmado em um novo estudo.
Vai ter no SUS?
Por enquanto, não há previsão. Nem o anúncio da Anvisa nem o Ministério da Saúde falaram em oferta pela rede pública.
Isso acontece porque registro e SUS são etapas diferentes. A Anvisa diz se o remédio é seguro e eficaz para ser vendido no país. Antes da venda, a CMED, câmara que regula o preço de medicamentos, define quanto ele pode custar. Para entrar no SUS, o remédio ainda precisa ser avaliado pela Conitec, comissão que assessora o Ministério da Saúde. A lei dá 180 dias para a decisão, que podem ser prorrogados por mais 90, contados a partir do pedido.
Um detalhe do mesmo 20 de outubro mostra a diferença. Nesse dia, o ministério anunciou a oferta no SUS de nove remédios contra o câncer. Um deles, o gefitinibe, também é para câncer de pulmão de células não pequenas, mas como primeiro tratamento. O Emrelis, que é para quem já foi tratado, não está na lista.
O que fazer se alguém da família tem esse diagnóstico
Só o oncologista que acompanha o caso pode dizer se o paciente se encaixa na indicação. A conversa passa pelo exame de c-Met do tumor e pelo histórico de tratamentos. Não mude nem interrompa tratamento por conta própria.
O que vem agora
O próximo passo é a definição do preço pela CMED, que libera a venda no país. A chegada ao SUS depende de um pedido de avaliação à Conitec, e até agora nenhum foi anunciado.
Leia também: SUS começa em novembro a oferecer teste de fezes que rastreia câncer de intestino.
Fontes
- Anvisa — Anvisa aprova novo medicamento para câncer de pulmão avançado (20/10/2026)
- Agência Brasil — Anvisa aprova novo medicamento para câncer de pulmão avançado (22/10/2026)
- Diário Oficial da União (espelho Atlas Público) — Resolução-RE nº 4.078, de 16 de outubro de 2026
- Portal Afya — Anvisa aprova telisotuzumabe vedotina para câncer de pulmão
- FDA — FDA grants accelerated approval to telisotuzumab vedotin-tllv for NSCLC with high c-Met protein overexpression
- Ministério da Saúde — Ministério inicia oferta no SUS de nove medicamentos oncológicos (20/10/2026)
- Conitec — Conheça a Conitec
Imagens: Imagem ilustrativa. Foto: cottonbro studio (licença Pexels), via Pexels





